sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Simples Assim



Inda há pouco caiu uma chuva – boa chuva!
Logo depois o céu se azulou de novo – esplêndido! - Assim, recém lavado.
Até parece que a cor que o coloriu respingou nas hortênsias.

Eu queria que você pudesse ver, queria que estivesse aqui.
À porta da casa eu procuro numa esperança infantil da sua presença.
Queria que viesse ver comigo, mesmo que não dissesse nada.
Só que o visse assim, ao meu lado.
O céu - absoluto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Clausura


Estou sempre a pensar em como se chegou ao agora,
a isto, aos porquês -  nos sentimentos de antes.

Fui visitar um museu aonde tudo recendia o passado  distante,
e também se ressentia do desbotamento da beleza.
As imagens produziam consternação e
exalavam um cheiro que remetiam ao sofrimento.
Era um museu de arte sacra e o prédio, respeitado, respeitoso,
Parecia ter muitas chagas rusticamente tratadas com a cal recente.

O jovem que se apresentou para nos prestar as informações mais diversas
Nos  contou também que no andar superior, 
aonde não se pode ir - deixou claro -
Ainda moram as freiras, que são muito raramente vistas porque vivem enclausuradas.

A partir desse momento, os meus olhos queriam subir aquelas escadas,
Vasculhar cada corredor e procurar, não a freira que se escondeu,
mas o porque da clausura a que se impôs (por ela ou por outros?).

Talvez o  coração já estivesse  enclausurado - pensei - muito, muito antes
Cerrado atrás de grossas paredes de medo (ou de dor).
Por isso o corpo se deixou levar para dentro daquele lugar sombrio.
Será que Deus não as preferiria vivendo livres do cheiro que ocupa, 
um pouco mais a cada dia, os lugares antigos?  
Será que o perfume das flores não sublima mais os seus sentimentos?
Será que um dia foram meninas com vestidos coloridos e sonhos também?
... 
Do jardim, olhei as janelas – todas fechadas.
Do lado de fora, uma brisa suave passeava por entre flores e folhas.
Lá dentro – a vida enclausurada.
O coração,  os sentimentos, quem os enclausurou?

Saímos dali e seguimos pelo centro da cidade.
Lá se podiam ver muitos mendigos: homens, mulheres e crianças,
Enclausurados todos na ignorância, no cheiro repulsivo da falta.
Quem os trancafiou assim nesses mundos tão distantes e sombrios,
Coexistentes num transpor de portões?

Enquanto isso a brisa suave passeia por entre flores e folhas
e sopra sobre todos o frescor de Deus.
Mas, os enclausurados não o sentem.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O mar e eu

O mar e eu não temos muita intimidade.
Na verdade, o mar me intimida.
Eu nasci longe da areia macia, numa terra dura, vermelha.
Por isso trago em mim uma tristeza de semente que não vingou.

Eu não sei de onde vem a voz que canta em meus ouvidos
Um fado sentido como luz derradeira,
Como um trem partindo na madrugada,
e eu me ponho a caminhar por sobre pedras antigas,
polidas ao longo de muitos anos – imaginárias.

De que me vale um sonho grandioso
Se minhas mãos pequenas não o comportam.
O mar é tão grande – me intimida -
Tanto quanto a claridade que invade o meu sonho
Que também em mim não cabe...
Como o mar que me assusta.