sábado, 10 de junho de 2017

Minguante


Visto-me de silêncio.
Sou agora o que não se importa.
Vejo-me e minha figura se decompõe em lembranças
Que se revelam em cores, sons e movimentos
E me fazem esmorecer.
Visto-me novamente.
Eu agora sou só tristeza.
Tento me lembrar de cada palavra -
tantos gestos inacabados -
Como a recriar cada ato.
E agora sou só ressentimento.
Visto-me mais uma vez
Sou só cansaço.
Olho ao redor a procurar com que me vestir.
E eu sou só uma vontade indefinida.
Começo lentamente a despir-me
E agora sou só eu.

Só.

Foto: Lásara

sexta-feira, 18 de março de 2016

O que se guarda


Dentro da casa há um lugar
Onde se guarda a caixa do silêncio
(aquele que se faz no momento do abraço apertado
e falar é tão inútil).
Há outra em que há muito se conserva o amor
E mais uma, e nela há o riso e a alegria
- Estão lá, reservadas – as três caixas.
Agora, não há tempo para elas.
Agora, é preciso mexer e remexer
nas caixas de lembranças
Numa exaustiva tarefa de procurar
(não se sabe bem o quê).
Estamos sempre a buscar, a desejar
Aquilo que temos guardado há tanto,
Nas caixas que raramente abrimos.
São aquelas que contêm o riso e a alegria,
E também a do silêncio e, principalmente,
A do amor, cuja caixa... anda perdida.


Foto: Lásara Vargas

domingo, 29 de novembro de 2015

Mariana

Mariana pintada em 1895 por Alberto Delpino

Carlos, você pode ver?
A barragem se rompeu e a lama cobriu a cidade.
Não é de ouro nem ferro.
Ainda não se pode contar quantas casas,
Quantas Marias, entre lágrimas, perguntam:
“E agora, José? a luz apagou, o povo sumiu…”
Cadê cidade que se via do alto da montanha?
Montanha não há mais, José!
Veja como são fundas, muito fundas
Essas crateras abissais.

O que resta agora é um rio escuro e barrento
A preencher o vazio que a máquina deixou.
Quanto vale a paisagem que se perdeu?
Quanto vale a vida sufocada, enlameada,
…Perdida

Responda, José!
Quanto VALE?
Talvez se subir ao Pico do Cauê,
Lá do alto se veja Mariana, menina bonita,
Passeando entre vales e montanhas.

– Carlos, veja, pico não há!
Bem que você avisou.
“Quer ir para Minas,
Minas não há mais.”
E agora, Carlos?"
"E agora, José?”