domingo, 7 de outubro de 2012

Se essa rua fosse minha...


Sentadas no alpendre, minha mãe e eu olhávamos as crianças brincando.
Sobre  nós um silêncio de final de tarde - instante inefável.
Parecíamos cada uma em uma época,
Unidas pela presença uma da outra.
Lá fora a vida corria nos pés das crianças,
Que disso não sabiam – nem do tempo,
Coisa que só se descobre bem tarde.

De repente o tempo presente  soprou sobre nós a sua existência,
Em forma de brisa que pareceu despertar minha mãe.
E ela disse bem baixinho,  quase um lamento:
- Sinto tanto a falta de minha mãe... uma saudade tão grande!
Eu olhei para ela sem nada dizer – não podia!
Os seus olhos estavam encobertos por uma névoa
Que, eu acho,  se chama saudade.
Eu não sabia como ele, o tempo, pudera buscar lembrança tão distante!
Eu não sabia que o amor podia durar tanto!

Levantei-me e beijei os seus cabelos.
Foi nesse instante que notei como estavam brancos...
Então os meus olhos também se cobriram de névoa.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma casa em construção


A casa, ainda em construção, não tinha portas.
Janelas sim – bem amplas como sempre quisera.
De manhã fui visitá-la e encontrei  o sol
Passeando pela casa, clareando, aquecendo.

À tarde, lá fui eu outra vez, desejando que  num passe de mágica
A casa ficasse pronta – qual nada!
Era feriado e nenhum trabalhador se dispusera a concretizar o meu sonho.
Sentei-me na porta da casa inacabada e admirei o sol indo
Para trás da montanha, lançando sobre a “minha” casa seu último olhar
- caprichoso deleite.

Voltei-me e vi a lua surgindo, enorme, clarinha, clarinha...
como uma fada em sua  alvura.
Tranqüila, foi subindo devagar e ficando cada vez mais brilhante,  imponente
- certa da minha admiração.
A claridade entrava pela casa, como a fazer  uma inspeção.

De repente me dei conta: a casa era feita de luz
E as casas feitas de luz demoram mais que as outras
Porque é preciso que primeiro se tenha o sonho,
Depois uma montanha aonde nasça o sol e outra aonde se esconda;
Também é preciso que tenha  lua e estrelas
E uma varanda de onde se possa admirar a chuva.

É preciso cultivar o jardim e atrair os pássaros.

Por isso demora tanto para que se tenha a casa pronta.

Foto: Lasara Vargas

domingo, 22 de julho de 2012

"In aeternum" - Para G.


Tão louca a dor que sentias
Que nem sabias se em teu peito toda se acomodava.
Quem percebia o medo que suportavas em tuas noites vazias,
Quem conhecia a solidão que carregavas em teu confuso coração?

Teus pensamentos tortos, teus passos sem prumo,
Tua fala inexata, tua vida sem tino...
Esqueceram-se todos que um dia tu foste criança,
e que traçavas grandes rotas de vôos.
Mas, tuas asas de ferro te prendiam ao chão.

A neblina que confundia teus sentimentos,
 Menino não via, ficava mais densa a cada dia.
Muitas vezes perdeste a lucidez.
Mas, atire a primeira pedra quem nunca a perdeu!

Tão pouco eu te vi,  mas meus olhos nunca se esqueceram
a dor que enxergou nos teus.

Por isso, na noite que parecia não ter fim,
quando tu decidiste voar sozinho na escuridão,
eu sei o que viste, embora não conte,
acima das nuvens escuras, acima de tudo, acima de todos,
encontraste a aurora da tua vida.

Agora descansa, o menino, no colo do Pai.