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domingo, 1 de abril de 2012

Desenredo

Acontece às vezes e me pego pensando
No último instante.
Se no meio de um sorriso – pra quem será? –
O coração pára! Irremediavelmente –
Sem aviso nem alarde - o deixar-se ir.

E se assim não for?
Se num momento de dor – Por que será?
Um gesto brusco interrompido,
O olhar recolhendo a última paisagem – de onde será?
O momento preciso, o perfume, a surpresa do inadiável.


A vida estala e de repente se rompe.

No exato instante – nem antes nem depois.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Reencontro

Era começo de noite, de lua amuada e sombras escuras. A casa parecia cochilar no final da rua, daquela pequena cidade. À frente estendia-se uma grande varanda que se comunicava com a cidade ou, como diziam os moradores, com a civilização. No fundo, pareceria não haver nada mais. E a casa ali, antiga, resignada, sempre olhando o pouco movimento da rua - quase nenhum.


E foi assim, com as sombras a encobrir lentamente o adormecer do dia, que a mulher, pequena e ágil, chegou. Trazia somente uma mala que ela equilibrou ali mesmo no chão, em frente à casa. Tocou a campainha e esperou. Ouviu o latido de um cão e, enquanto esperava, examinava a casa e a paisagem sumindo na escuridão. Olhou o céu, depois a porta e pensou se havia tomado a decisão certa. Qualquer coisa a concluir ficaria pra depois, pois, lá dentro as luzes se acenderam e a casa ganhou nova perspectiva.


A mulher ficou ansiosa.


O tempo parecia escorrer por debaixo da porta, longo, interminável, até que se abriu e lançou-lhe um facho de luz.


Apareceu um homem antigo, não velho, mas antigo, desses que só se encontram nas casas antigas, das cidades pequenas do interior do estado.


Ele olhou a mulher com certa curiosidade, não explicitamente demonstrada, e reparou na mala. Dirigiu-se a ela, ainda da porta, imaginando que, àquela hora, deveria ser alguém pedindo qualquer coisa – não era tarde, era ainda começo da noite.


- Pois não?


Por alguns instantes, ela o olhou tentando encontrar, na pouca claridade, alguma coisa familiar. Um sorriso duvidoso iluminou brevemente seu rosto de uma maneira quase infantil, e ela disse:


- Antônio?


- Sim? Ele franziu um pouco a testa e fez menção de se dirigir a ela. Ela, mais decidida, deu alguns passos à frente de modo a ficar num ponto mais iluminado.


- Sou eu, Antônio, sua irmã. Não me conhece mais?


A lua parecia mais clara agora, atenta àquela cena. Ele nada disse – não poderia. A voz parecia machucar-lhe a garganta e eles se abraçaram com força.


- Tanto tempo! Tanto tempo! Disse ela e depois ele.


A casa aberta, agora cheia de luz, recebeu-os. Havia tanto para contar – foram anos de convivência: de idas e vindas, de carinhos e de brigas, enfim, de família. Depois, trinta e cinco de separação. Havia muita coisa...

Depois que os pais morreram, como quase sempre acontece, os irmãos se separaram. Antônio, um dos mais velhos, havia se mudado para o interior e lá criara a sua família. Maria Lúcia, a mais nova, ficara na capital.



Mais decidida, ela voltou a dizer:

- Ah, Antônio, tantos anos andamos juntos, lado a lado – os melhores anos. Depois, você desapareceu e deixou um vazio, mas ainda assim andava comigo... no meu coração. Eu vim te procurar antes que você começasse a andar somente na minha lembrança...

domingo, 27 de novembro de 2011

Ciranda

O ladrão passou correndo
E levou o anel que tu me deste.
Não era vidro, era puro ouro – tu disseste!
Tanta estima que eu lhe tinha
e agora somente uma marca restou.

Senhor ladrão, talvez não saiba,
Não poderia mesmo saber,
Quanto me custa ver este dedo vazio
Nele eu exibia uma prova de amor.

Corre o ladrão com minha jóia,
E logo se forma uma ciranda de espanto.
atordoada, olho a marca que ele deixou.
“Vão-se os anéis, ficam os dedos”:
Alguém na roda, teatral, recitou.

Vamos dar a meia volta – volta e meia é que não dá.
O anel não volta mais – outro ainda profetizou.
E a roda assim como se fez assim se dispersou.
Vou pensando na minha perda...
Há muito se quebrara, não o anel,
Mas o amor que outro coração furtou.

Senhor ladrão, talvez não saiba,
Nem poderia mesmo saber,
O anel que tu levaste não era vidro e tem valor,
O amor que nele havia é que era pouco
E há muito se quebrou.

Ciranda, cirandinha... E tudo agora se acabou.

domingo, 13 de novembro de 2011

Esperança

Eu sou muito jovem ainda,
Mas você insiste que preciso cruzar o oceano,
Largar a segurança da praia.
“É hora de partir, eu vou...”
Por que preciso ir?
Meus olhos já estão cheios de saudade,
Que eu não sabia existir,
E se derramam mais que toda a água do mar.
Você não vê?
Meu coração ficou tão pequeno – como uma ervilha -
Não pode suportar tanta dor!
Por que é preciso sofrer assim?
“A cera da vela queimando...”
Como pesa essa mala!
Tanto medo carrego dentro!
Você não se importa?
Olhe os meus olhos.
Tanto sentimento eles te contam!
Ah, o mar é tão escuro!
É tudo o que eu não sei.
“Vou-me embora pra bem longe...”
Eu tenho medo – o medo me prende
E aperta com tanta força o meu coração.
Ou não – talvez não seja isso.
Pode ser a saudade que se antecipa.
Pode ser...
Os retratos na parede descascada
(seus traços tão afeitos)
De repente embaçados.
Você não vê porque está tão escuro.
Você não ouve porque soluço em silêncio.
Tão profundo esse silêncio – tanto quanto o mar.
Esse mar que quer que eu atravesse.
Do lado de lá só a solidão.
Eu me desintegro – perco os retratos
E o que me resta:
uma parede descascada – desconhecida.
“A morte é o fim do novelo”.

domingo, 6 de novembro de 2011

Esperança


Olho o pássaro pousado lá no alto.
Em quê ele pensa? Ponho-me a imaginar:
Tomara que amanhã seja um dia bonito.
Que tenha sol, mas que seja brando o seu calor.
Que o céu esteja azul e as plantas bem verdes.
Que tenha flores, sem exagero, mas que existam.

Quero o melhor de cada estação.
Tomara que chova esta noite.
Assim amanhã o ar estará limpo e fresco.
E que sopre em mim o viço da esperança.

O pássaro, liberto, abre suas asas e voa.
Eu, imóvel, percebo que os desejos são meus -
Não dele.

domingo, 16 de outubro de 2011

Desesperança

Há, naquela cidade pequena, algo que a faz triste.
Talvez porque traga no próprio nome
a pluralização do sofrimento físico.
As águas do rio, que não a banham,
Não podem levar pra longe as suas dores.

Nem mesmo o sol que permeia a copa das árvores
E fica ali peneirado, espalhado no chão (tão bonito de se ver!)
Pode entender porque sua luz não ilumina aquele canto.

Embora riam, os moradores se fazem tristes quando sozinhos.
Quando recolhem os tamboretes do alpendre,
Levam também, pra dentro da casa, a noite que cai.

Tão mansa e morna, a noite chega,
envolvendo a cidade retraída e triste.
Recolhida em si mesma nem reparou as estrelas –
tão abundantes!
Espera somente que venha mais um dia.

E tudo de novo, do sol à lua, do dia à noite,
Estende-se o tempo, cumpre-se a vida,
Alegria por quê? Perguntam-se os moradores
Se todo dia se faz, igual e pra sempre.

É um novo dia, a luz anuncia. Mas logo entende
Que por ali não nascerá alegria.
É ano novo, alguém se arrisca. Mas logo compreende
Que ali esperança nenhuma vingaria.

Arrasta-se o tempo naquela cidade,
Na poeira das ruas, em Minas Gerais.

domingo, 25 de setembro de 2011

Farol


No ponto mais alto um farol existe.
Mesmo quando é densa a neblina,
sabe-se que lá está.

Sua luz que nunca descansa aos navegantes irradia:
Divisa há entre o mar e a terra.

E aos da terra, a luz que tudo alumia:
aqui termina a terra - à frente, o grande mar.

O farol é que sabe a terra e o mar.
Dois elementos tão distintos:
Profundezas indecifráveis, intransponíveis.
Lá do alto o farol a avistar.

Assim o homem e o espírito.
Entre eles, acima deles,
o farol - Deus.