quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Torpeza




Da janela no 3º andar, embora não seja assim tão alto,
posso ver um pouco além
da vida que se estende pra fora desta sala.

Aqui dentro tudo parece estagnado –
(quase me sufoca)!
Lá fora a vida, essa bailarina desequilibrada,
corre por entre prédios, árvores, obstáculos (tantos!).

Daqui eu observo:
vejo pombos em cima de um telhado próximo,
um ruído mais alto, um movimento brusco e
eles são aves, voam;
logo tudo se aquieta e eles são pombos outra vez:
rasos, torpes, indignos de suas asas.

Eu os observo - e os imito.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Decepção

O dia chegou – o sol também.
Surpresa nenhuma.
Não houve canto de alegria
Nem riso de felicidade (ela não veio).
Não teve flor, não teve amor.
Beijo também não.

Era só um domingo – domingo de sol,
Sol de todo dia – o amor não –
Não é o mesmo todo dia,
Não é sempre, não conhece eternidade.
A eternidade do amor é só um desejo.
Mesmo o amor é só um desejo.

À tarde o céu escureceu.
A chuva caiu forte e rude,
Inundou ruas, maltratou gentes,
Meu coração irremediavelmente avariado,
Fez par com o tempo.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Conto de Natal


Eu remexia os meus “guardados” procurando uma mensagem de natal que pudesse copiar e mandar para os vizinhos e conhecidos, porque para os amigos a gente diz num abraço.
Remexendo nas caixas, olhando na estante (que mania eu tenho de guardar e guardar!) já nem me lembrava o que procurava e eis que encontro um livro de Rubem Braga e nele, um “Conto de Natal”.
Pensei: deve ter aí uma frase, um trecho que eu possa “copiar”.

Comecei, então, a ler.

Ele conta a história de um casal - um homem desempregado, a mulher grávida, prestes a ter o bebê, e o filho de 6 anos. Juntos eles atravessam um pasto, passando por cercas de arame farpado, em busca de um lugar para nascer a criança.
Durante as agruras do não encontrar, do não ter, do sol a queimar a pele e os sentimentos, e depois, da chuva que cai e torna tudo ainda mais difícil, eles encontram um carreiro e seu carro de boi que os leva até uma casinha de sapé, uma estrebaria, para passarem a noite.
Quando o carreiro volta no dia seguinte, sem ajuda e com pouca comida, amargurado (talvez por não ter trazido quase nada), amaldiçoa “aquele” natal.
Nesse momento, o pai que há muito não ria, lembra-se que é dia de natal e, então, rindo, decide dar ao recém-nascido o nome de Jesus Cristo.

Poderia, se o autor assim o quisesse, acabar aí a história. Ou, talvez, numa cena comovente, inspirado pela Providência Divina, o dono da fazenda, arrependido, encontra o casal, devolve ao homem o seu emprego salvador (ou sofredor) e os leva, ele e sua família, para uma farta refeição e...

Mas não, o autor, com todo o seu poder e glória, dono absoluto do seu conto e do sentimento que o induzia a escrever, continuou:
O filho de 6 anos olha o irmãozinho recém-nascido e chama o pai para ver.
- “O menino Jesus Cristo estava morto!”

O meu coração de leitora, ali, em pé perto da estante, estremeceu. Meus olhos ficaram embaçados e minha garganta não deixou escapar sequer um “oh”!

Deu-me uma bruta raiva do Rubem Braga – como é que ele teve coragem de matar o menino Jesus, aquele que poderia salvar o mundo?! Pelo menos “aquele” mundo?!

Fechei o livro num gesto desalentado, afinal, o menino estava morto!
E por todo o resto do dia uma tristeza me acompanhou enquanto eu tentava entender por quê o autor deu à sua história – de natal - um desfecho tão mórbido.

Já no final do dia, lembrei-me da necessidade de escrever nos cartões de natal, mas, havia dentro de mim ainda a imagem desolada de uma casinha de sapé, uma mulher e seu filho morto, uma criança de 6 anos com fome, um homem em trajes rotos a fumar um cigarro de palha do lado de fora, sentado num tronco, tendo ao seu lado um carreiro.
O que fazer?

...
E penso, agora, que talvez Rubem Braga não tenha “matado Jesus” por maldade!
É que talvez ele não tenha visto a esperança nascer junto com aquele menino, naquele pasto sem árvores, e preferiu mandá-lo de volta, para o mundo do qual nada se sabe, antes que tivesse de sentir a dor da falta de comida, do sol que queima, do arame farpado, da injustiça.

Talvez tenha sido melhor assim... Seria uma vida tão dura para Jesus Cristo. Sem natal, sem estrela...